A "sharia" a oeste de Pecos destrói mais valores cívicos do que imagens de selvajaria

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Nestes últimos dias, tem sido tema de debate, entre jornalistas, e não só, o tratamento a dar às imagens de decapitações praticadas por assassinos fanáticos islâmicos. Uma estação de televisão já tomou a decisão de eliminar essas imagens, mas fiquei com a sensação de que as motivações são morais. E isso é de pôr em causa. Não tenho objeção de maior a que não se mostrem as imagens, mas contesto o seu fundamento.

Uma decisão de não mostrar imagens não se pode basear na sensibilidade moral de um responsável editorial: cada qual tem a sua, ela difere de pessoa para pessoa e não tem espessura para constituir um critério de decisão que vincule terceiros. As razões têm de ser éticas (não morais) e jornalísticas (quanto à obrigação e limites de informar). E, a serem tomadas, devem envolver debate coletivo, através do Conselho de Redação.

Uma imagem pode ser horrorosa e, no entanto, tornar-se imperioso divulgá-la. Não é o feio ou o bonito que se impõe como critério, mas a necessidade de dar informação. As televisões mostraram as imagens do fuzilamento apressado e meio clandestino do ditador romeno Nicolae Ceausescu e da sua mulher; e revelaram como ficou desfigurado Muammar Kadhafi ao ser chacinado pela populaça. Nos dois casos - para ser sintético e direto - fizeram bem: revelaram com isso a selvajaria revanchista daqueles que dias antes estiveram a beijar os pés a Ceausescu e a Kadhafi - e isso pode ter ajudado a esclarecer o público.

Paradigmáticas foram as horríveis imagens da chacina indonésia no cemitério de Santa Cruz, em Díli: um jovem baleado a esvair-se em sangue e uma multidão de cadáveres à sua volta. Foram essas imagens que incendiaram a indignação mundial - e Timor-Leste é hoje livre.

O critério não é, portanto, o que é bonito ou feio, mas o que informa ou denuncia. Se só escolhêssemos mostrar o bonito, desprovíamos do seu símbolo máximo a maior religião do mundo, a cristã: um homem torturado e pregado numa cruz. Essa imagem feia tem sido a inspiração para belos gestos de muitas pessoas simples. Pelo contrário, mereceria denúncia o belo--horrível simétrico: o que deveria ser um símbolo do martírio transformou-se numa joia decorativa de ouro com rubis e outras gemas, pendente sobre peitos purpurados de altíssimos mas mundanos dignitários de igrejas cristãs. Veja-se como a fealdade pode ser, à sua maneira, redentora - e o belo pode ser mesmo horroroso e desavergonhado.

Não acharia mal - pelo contrário! - que os repórteres do DN interpelassem aqueles dignitários sobre o que se afigura uma enorme incongruência e uma deplorável e leviana ostentação de cupidez por bens materiais.

Mais grave e corrosivo dos valores civilizacionais seria se o Parlamento, num happening alucinado de drogas e fumos, aprovasse o irresponsável, senão trágico, desatino legislador da ministra da Justiça, que quer que os nomes de antigos condenados por pedofilia e com pena cumprida estejam disponíveis nas esquadras e acessíveis a pais de jovens com menos de 16 anos. (Como se estes guardassem segredo...)

Desconfiando do que pode sair dos crânios automatizados das maiorias parlamentares, no DN, pelo menos, Nuno Saraiva e Fernanda Câncio deram o alerta à opinião pública - e a ministra levou deles para seu tabaco. Foram boas lições de Estado de direito, mas receio que infrutíferas na mente de quem conseguiu inventar esta histérica sharia a oeste de Pecos, de que até o juiz taberneiro Roy Bean se envergonharia.

Em tempos, indignei-me - hoje já não... - com a invetiva que o bastonário dos advogados, Marinho e Pinto, dirigiu à governante. Chamou-lhe "desnorteado inseto ortóptero da família dos blatídeos, com um corpo oval e chato com antenas, veloz e muito voraz, em geral doméstico e de costumes noturnos, que faz as delícias dos chineses no mercado de fim de tarde na Baixa de Pequim..."

(Bem, ele foi mais conciso, mas eu é que estou a treinar-me para abrir um negócio de espetadas de perífrases, metáforas e catacreses numa banquinha do Mercado da Ribeira que o meu amigo Luís Delgado fará o favor de me dispensar...)

Como explicar a uma ministra que o que pretende legislar, mais do que uma tolice que deveria ter sido convenientemente sufocada pela entrada de uma mosca no momento de a proferir, mais do que um retrocesso civilizacional, é o incitamento e a legalização de vários crimes: multiplicar-se-iam as esperas, os apedrejamentos, as pichagens de denúncia na porta dos antigos condenados, para não falar nas chantagens e extorsões, uma vez que não é certo que todos os pais de jovens com menos de 16 anos sejam santos e puros.

Além disso, não demoraria um dia até tais listas serem publicadas em tabloides de justiça populista - sempre com o objetivo de proteger os indefesos dos malvados.

Só falta obrigar os ex-condenados a exibir uma qualquer estrela cosida na roupa (ou mesmo tatuada no rosto, pois então!), reinstituir as medidas de segurança do fascismo a caminho da pena perpétua, queimá-los em piras nos pelourinhos...

... Ironicamente, tento imaginar o que seria desta lei celerada - e com as suas previsíveis consequências - se tivesse sido publicada nos anos 50: não existiria o cântico religioso mais entoado em todo o mundo católico: "A treze de maio/ Na Cova da Iria/ Do céu aparece/ A Virgem Maria..." etc.

É que o seu autor - do texto e da música - foi o mais descarado e público pedófilo da literatura portuguesa, António Botto, de seu nome, célebre por aqueles versos que metem "fedelhos" e "conselhos" que todo o mundo conhece. Pois este Hino a Nossa Senhora do Rosário foi escrito em 1955, dedicado ao cardeal-patriarca D. Manuel Gonçalves Cerejeira, que lhe concedeu o Imprimatur... (António Botto, Fátima, edição e cronologia de Eduardo Pitta, Quasi Edições, 2008, hino na pág. 83).

Um dia destes escrevo uma cartinha ao Papa Francisco: sobre tal sharia assassina em preparação nesta "Nação Fidelíssima" - e sobre isso dos crucifixos de enfeitar...

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